sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

CORDEL E CARNAVAL

NA FEIRA DE SÃO CRISTÓVÃO-RJ


Em outubro de 2012 estive no Rio de Janeiro, gravando um depoimento em áudio e vídeo para a ABLC (Academia Brasileira de Literatura de Cordel) e aproveitei o ensejo para rever a Feira de São Cristóvão, na companhia dos poetas Marcus Lucenna e Zé Duda. Num dos pavilhões, encontrei adereços utilizados pela Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, vencedora do carnaval daquele ano, com enredo baseado na cultura nordestina e na Literatura de Cordel.


Na época, o poeta Marcos Mairton reproduziu em versos de sua lavra, no blog MUNDO CORDEL, os principais atrativos da escola campeã do carnaval de 2012:

"Já chegou o carnaval!",
Canta o povo brasileiro.
E o Cordel vai ser assunto
lá no Rio de Janeiro.
Porque, neste carnaval,
Cordel é o tema central
Do desfile da Salgueiro!

Vai ter ala "Padim Ciço"
E Ala dos Violeiros,
Homenagem a Patativa
Ala dos bois mandingueiros.
Mostrando samba no pé
Passistas virão até
Vestidos de cangaceiros.

Esse encontro cultural
Vai chamar muita atenção,
Juntando Samba e Cordel
No meio da multidão.
Vai ser festa garantida
Se espalhando na avenida
Na maior animação.

Pois, se o Samba é popular,
O Cordel não fica atrás.
O Samba traz alegria,
Isso o Cordel também faz.
No carnaval, o Cordel
Cumprirá bem o papel

De falar de amor e paz.



sábado, 23 de janeiro de 2016

Feira de Bolonha - Itália


O livro VOZES DO SERTÃOda editora Cortez, que reúne contos e poemas, organizado por Lenice Gomes, foi selecionado para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha, Itália, publicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). A obra inclui três textos em CORDEL, da autoria de Arievaldo Vianna, Arlene Holanda e José Walter Pires. O livro foi ilustrado por Rui de Oliveira, que está sendo homenageado no catálogo da FNLIJ.

VOZES DO SERTÃO
Cortez Editora
Organizador: Lenice Gomes
Ilustrador: Rui de Oliveira
ISBN: 9788524921605
Número de páginas: 100
Formato: 21.00 X 28.00
Peso: 1700 gramas

SINOPSE
Vozes do sertão viagem pela memória traduzida em palavras. São nove histórias, entre cordéis e contos, que fazem um passeio pelo sertão nordestino e também das Minas Gerais. "O sertão é o mundo", como diria Riobaldo, o jagunço sertanejo da Grande Sertão: Veredas, obra-prima de Guimarães Rosa. Um mundo cheio de histórias contadas e recontadas, com a força do sertanejo que enfrenta a vida e a morte e insiste em contemplar a beleza e o encantamento do mundo.
O texto que abre a coletânea é o meu cordel O HOMEM QUE QUERIA ENGANAR A MORTE.

TRECHOS


Diz um antigo provérbio
Que a morte ninguém desvia
Até mesmo Salomão
Com sua sabedoria
Quis mudar o seu destino
Mas o desígnio divino
Tal coisa não consentia.

Tentar mudar o destino
Que nos traça o Soberano
Mostrou-se, através dos tempos,
O mais lamentável engano
Todo homem, quando nasce
A Morte grava-lhe a face
Com a marca do desengano.

Ceifar da face da terra
Todo e qualquer ser vivente
É esta a sua missão
Imutável, permanente,
Tentar enganar a Morte
É pelejar contra a sorte
Numa luta inconseqüente.

Manter gelo no sol quente
Sem ter refrigerador
É querer guardar dinheiro
Depois que perde o valor;
Renegar o Evangelho,
Viajar num carro velho
Depois que bate o motor.

Num pequeno vilarejo
Encravado no agreste
Residia um potentado
O mais rico do Nordeste
Fazendeiro respeitado
Dono de ouro e de gado
Sovina que só a peste.

(...)


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sertão em Desencanto

Família do meu bisavô Francisco de Assis e Sousa

Padre Mororó, um ancestral das famílias Souza-Mello e Martins Viana do Quixeramobim

Reza a tradição oral de nossa família (Souza Mello e Martins Vianna*) que o nosso antepassado Miguel José de Souza Mello, o velho Miguel do Castro era sobrinho pelo lado materno do Padre Gonçalo Inácio de Loyola Albuquerque e Melo (1778 – 1825). Havia, contudo, outros que afirmavam que o Padre Mororó era, na verdade, pai de Fortunato José de Souza Mello e avô de Miguel José, que vem a ser meu trisavô, pai dos meus bisavós Francisco de Assis e Souza (o Fitico) e de Francisca de Sousa Mello (Mãe Souza), esta casada com Miguel Martins Vianna, de família oriunda de Sobral e Santa Quitéria. Tal pesquisa foi aprofundada no primeiro capítulo do meu livro Sertão em desencanto, obra inédita, intitulado “Gênesis Sertaneja”.
Desde criança eu me interesso por este assunto e muitas vezes tentei absorver alguma coisa das conversas de minha avó paterna Alzira de Souza Lima com o meu tio José Bruno Vianna, ambos muito dados a essa coisa de pesquisa genealógica. Infelizmente não gravei o depoimento de ambos, mas retenho na memória alguns fragmentos que foram elucidados com a ajuda de documentos e de parentes das gerações anteriores à de meu pai, Evaldo de Sousa Lima.
O padre Mororó, como todos sabem, teve destacada atuação na história do Ceará no primeiro quartel do Século XIX. Além de ser um dos principais cabeças da Confederação do Equador (Revolução Republicana de 1824) foi redator e diretor do primeiro jornal fundado em nosso Estado. Era também poeta e latinista.
Vamos saber mais um pouco sobre a vida desse grande personagem nesse artigo do escritor João Bosco Fernandes Mendes, presidente da AQUILETRAS- Academia Quixeramobiense de Letras, Artes e Ciência, da qual sou membro, ocupante da cadeira que tem por patrono o poeta Manuel Bandeira.

* A irmã mais velha do padre Mororó, Gertrudes Tereza Inácio, casou-se com o português Antônio Martins Viana, pai de José Martins Viana, Antônio Martins Viana Filho e outros cuja história não guardou lembrança. Desconfio vir também desse ramo o parentesco que temos com o padre Gonçalo de Mello, alegado pelos nossos antepassados. Padre Francisco Sadoc de Araújo, em seu livro Cronologia Sobralense, diz o seguinte a respeito desse fundador do clã Martins Viana: “Antônio Martins Viana, português natural de São Miguel dos Morrinhos (aparece em outros documentos como São Miguel de Marinhas), filho de Manuel Francisco Costa e de Maria Costa, casou-se a 6 de novembro de 1787 com Gestrudes Tereza Inácia, filha de Félix José de Sousa Oliveira e de Teodora Maria de Jesus.” (In Araujo, Sadoc – Cronologia Sobralense, Vol II, pg 113).

 Padre Mororó

PADRE MORORÓ, FIGURA EXTRAORDINÁRIA DA HISTÓRIA DO CEARÁ, ESPECIALMENTE DE QUIXERAMOBIM

         João Bosco Fernandes

       Quantas pessoas são capazes de dar a vida (literalmente: papocar, bater a caçoleta), por suas ideias, seus projetos, seus ideais? Pouquíssimas (entre elas, Jesus Cristo). Eu, por exemplo, não sou capaz disso, nem pretendo ser (quero é viver muito). O padre Mororó foi uma dessas, e o fez com coragem e dignidade mais difíceis ainda de se encontrarem.
            Gonçalo Inácio de Loyola Albuquerque e Melo (1778 - 1825), segundo o Barão de Studart[1], nasceu em Riacho dos Guimarães, hoje Groaíras, no norte do Ceará[2], de Félix José de Souza e Oliveira, do Rio Grande do Norte, e Teodora Maria de Jesus Madeira, filha do português Manuel de Matos Madeira, "um alto titular da nobreza de Portugal, de nome diverso desse pelo qual se fazia tratar, e evadido da sua terra ante a mortal perseguição desenvolvida contra a sua família pelo Conde de Oeiras, poderosíssimo Ministro d'El-Rei Dom José."

Bandeira da Confederação do Equador

            Mororó (sobrenome adotado por ele, um costume da época, significando 'madeira muito rígida') ordenou-se no seminário de Olinda (1802), onde também estudou ciências físicas e naturais. Era um tremendo intelectual, como informa Studart: "profundo latinista, bom pregador sacro, jurisconsulto, botânico, foi Mororó também o diretor do primeiro jornal publicado no Ceará, o Diário do Governo do Ceará, saído à luz a 1º de abril de 1824".
Foi professor de latim da vila do Aracati, demitindo-se em dezembro de 1821, e transferindo-se para Campo Grande (hoje Guaraciaba do Norte). Daí passou para a Barra do Sitiá (Quixeramobim), depois para a fazenda Canafístula[3], e em seguida para a Vila de Quixeramobim (residindo na Praça do Cotovelo, hoje Praça Coronel João Paulino). Aí, liderou a realização da sessão da Câmara, de 9 de janeiro de 1824, em que foi proclamada a república (no Brasil), fato que levaria ao seu fuzilamento.[4] Diz Studart: "foi esse o início da revolta [Confederação do Equador], que tantas lágrimas e tanto sangue custou ao Ceará. Destroçados os republicanos em Santa Rosa, feita a contra-revolução do Crato, proclamada de novo a monarquia por José Félix, que ficara na presidência da Província, como substituto de Tristão Gonçalves, seguiu-se a perseguição dos principais chefes, a captura dos cabeças da república. O Padre Mororó, preso em Fortaleza, à Rua dos Mercadores, hoje [início do século XX] Sena Madureira, e condenado à pena última, como o foram também seus companheiros de ideias [Pessoa] Anta, [Azevedo] Bolão, [Feliciano José da Silva] Carapinima e Pereira Ibiapina[5], foi fuzilado na atual Praça dos Mártires[6], ângulo norte do Passeio Público, a 30 de abril de 1825."

            Diz João Brígido[7]:

"O padre Gonçalo era de talhe elegante, alto, faces rosadas, expressão graciosa e vivaz. Nenhuma fortuna possuía além dum escravo, seu amigo de infortúnio, a quem legou a liberdade. Generoso até a prodigalidade, não soube tirar partido de sua ilustração, nesses tempos, em que eram dum preço inestimável os trabalhos da inteligência [ou da escolaridade]." "Era de uma memória pasmosa. Lecionava o latim, sem abrir nenhum dos clássicos, notando todavia a menor omissão que cometessem os seus alunos. Fazia versos latinos de grande perfeição."

            Viriato Correia, na Revista do Instituto do Ceará de 1924, assim descreve a sua execução:

            "Fortaleza, sob aquele maravilhoso sol do norte, acordou como para uma festa. Era um espetáculo novo a que toda gente queria assistir.

            Às sete da manhã os dois condenados [Mororó e João de Andrade Pessoa Anta] são entregues aos padres para a confissão.

            Na praça do quartel [atual quartel da 10 Região Militar], apinhada de povo, os réus apareceram. Quase ninguém [re]conhece o padre Mororó, que está ao lado de Andrade Pessoa. Naqueles poucos meses de cadeia os seus cabelos pretos tinham ficado como uma pasta de algodão.

            A brigada, sob o comando do major Queiroz Carreira, forma um quadrado para despir Andrade Pessoa das honras militares. No meio do largo há um oratório onde se vai fazer a desautoração [privação do cargo ou dignidade, como medida punitiva] das ordens sacerdotais de Mororó. O padre recusa-se: troquem-lhe apenas a batina pelas roupas de réu.[8] Vestem-lhe então a alva dos condenados. A camisola não lhe vai além dos joelhos.
Mororó olha demoradamente a vestimenta, ajeita-se dentro dela, puxa-a para baixo o mais possível para lhe cobrir os joelhos e, vendo a figura ridícula que fazia com uma alva tão curta, diz com um sorriso de ironia cortante:

            - Louvado seja Deus, que até a última camisa que me dão é curta.

            Rufam os tambores, soam as cornetas. Vai começar a marcha em rumo do local escolhido para a execução. O padre está de uma serenidade que a todos assombra. Ao seu lado Andrade Pessoa, vai dar os primeiros passos. Naquela hora horrível da sua vida, Mororó não se esquece de que é um homem educado - dá a direita a Andrade Pessoa. Ladeados pelos padres, os dois republicanos, no quadrado das tropas, seguem. As ruas cada vez mais se enchem. Nas janelas as famílias apinham-se. Há gente até trepada nas árvores e nos telhados. Mas toda aquela multidão está silenciosa e aterrada.

            O préstito caminha [pela Rua de Baixo, hoje Sena Madureira] para a capela do Rosário [então Igreja Matriz]. Os sinos de todas as igrejas tangem a finados, entristecendo o fulgor daquela esplendente manhã de sol.

            Ouve-se a missa que frei Luiz do Espírito Santo Ferreira celebra. Segue-se depois, lentamente, a caminho da praça do suplício [pela atual rua Guilherme Rocha, depois pela Rua da Palma, atual Major Facundo]. No meio do largo, há um grupo de homens e crianças trepados. A carga é tão grande que, no momento em que os condenados passam, o galho do cajueiro se parte e todo o grupo vem ao chão.
O padre Mororó estaca por um instante. Embora marchando para a morte, é o primeiro a rir[9] do trambolho do pessoal do cajueiro.

            Na praça em que se vai dar a execução, a multidão é tanta que a custo as tropas conseguem abrir passagem.

            Mororó é colocado na coluna da morte.

            Um soldado lhe traz a venda para lhe pôr nos olhos.

            - Não, responde ele, eu quero ver como isso é.

            Vem outro soldado para colocar-lhe sobre o coração a pequena roda de papel vermelho que vai servir de alvo. Ele detém a mão do soldado:

            - Não é necessário. Eu farei o alvo.

            E cruzando as duas mãos sobre o peito, grita arrogantemente para os praças:

            - Camaradas, o alvo é este!

            E num tom de riso, como se aquilo fosse uma brincadeira:

            - E vejam lá! Tiro certeiro, que não me deixe sofrer muito!
Houve na multidão um instante cruel de ansiedade. Tinha sido ordenada a pontaria. Todo o vago rumor do povo tinha cessado completamente.

            - Fogo!

            A descarga estrondou.

            O padre tombou sem vida. A seus pés tinham caído três dedos da mão que as balas deceparam."

            Como se vê, Padre Mororó liderou um dos momentos mais marcantes da história de Quixeramobim, hoje registrado nos anais da história do Brasil. E os autores sempre se referem de maneira muito elogiosa, aos participantes daquela sessão da Câmara quixeramobiense. Daí por que, a Academia Quixeramobiense de Letras, Ciências e Artes - AQUILETRAS, inclui o destemido padre entre os seus patronos.

João Bosco Fernandes Mendes - Presidente da AQUILETRAS

NOTAS

[1] No seu (hoje raríssimo) Dicionário Bio-Bibliográfico Cearense, publicado entre 1910 e 1915.
[2] Segundo o site 'Forquilha Ontem Hoje e Sempre', Mororó "Nasceu a 24 de julho de 1778, na fazenda Santa Bárbara, à margem do riacho Sabonete, região conhecida pelo nome de Arribita, termo da freguesia e do município de Sobral, atualmente território de Forquilha." A fonte de sua informação é o batistério de Mororó, publicado na obra 'Três Riachos, Uma Forquilha', de Joab Aragão e Jeta Loiola, de 2006, paginas 206 a 214.
[3] Canafístula Velha - ver minha crônica 'Canafístula Velha, Sítio Arqueológico da História de Quixeramobim", publicada no blog da AQUILETRAS (aquiletras.blogspot.com.br). O que faria ele por lá? Certamente convidado pelo Capitão-Mor José dos Santos Lessa, o homem mais poderoso de Quixeramobim, proprietário da fazenda Canafístula, sua residência, pai da Marica Lessa. A presença de Mororó por lá indica, talvez, que na fazenda se desenvolvia atividades intelectuais e sociais.
[4] Na Câmara de Quixeramobim existe um quadro com uma cópia dessa ata.
[5] Pai do Padre Ibiapina.
[6] Na época, Campo da Pólvora.
[7] Revista do Instituto do Ceará, 1889.
[8] Paulino Nogueira, em trabalho publicado em 1894 (na Revista do Instituto do Ceará), diz que, na verdade, as autoridades o dispensaram da humilhação, o que não ocorreu com Frei Caneca, em Pernambuco.
[9] Diz Paulino Nogueira: "esboçou um ar de riso", o que é mais realista.


FONTE:  BLOG DA AQUILETRAS - http://aquiletras.blogspot.com.br/

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

CONHEÇO O MEU LUGAR



IMPRESSÕES & IMPRECAÇÕES
 SOBRE A SECA DO QUINZE
1915 – 2015 – O que mudou e o que ainda permanece
ao longo desses cem anos de história

Por: Arievaldo Vianna



¨...Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!
Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!”
(Conheço meu lugar – Belchior)

Em geral, a imprensa do Sudeste ainda teima em apresentar o Nordeste como a região mais atrasada e vulnerável do país. A seca de 2015 tem sido usada escandalosamente com a finalidade de manter essa visão estereotipada e preconceituosa. O Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, acaba de produzir uma série de reportagens intitulada “O quinze – Travessia” onde a tônica principal parece ser a perpetuação dessa mentira, apresentando um Nordeste supostamente tão miserável quanto o de cem anos atrás*.
Não dá para assistir inverdades desse tipo passivamente, sem esboçar uma reação de protesto. Eu que nasci e me criei no Sertão Central do Ceará posso falar com propriedade, pois como diria Belchior, conheço o meu lugar! Não apenas o meu chão, mas os relatos verídicos de meus antepassados e a literatura deixada pelos escritores contemporâneos daquela geração.
Rodolfo Teófilo, testemunha ocular das piores secas registradas na segunda metade do século XIX e início do Século XX, dentre as quais as terríveis estiagens de 1877-79 e a famigerada Seca do Quinze (1915), foi um dos escritores que mais se ocupou desse tema em sua obra literária, com destaque para A fome (1890), Secas do Ceará – Segunda metade do século XIX (1901), Cenas e Tipos (1919) e Seca de 1915 (publicado em 1922). É certo que nenhuma dessas obras alcançou a grande projeção do romance O Quinze, de Rachel de Queiróz, escritora que bem cedo mudou-se para a região Sudeste do país, onde conviveu com os maiores intelectuais de seu tempo e colaborou nos principais meios de comunicação do Rio de Janeiro, antiga Capital Federal.

Abstendo-me de comparar ou discutir os méritos literários de Rodolfo Teófilo e Rachel de Queiróz, quero valer-me da obra de ambos para dar início a um modesto estudo sobre a Seca de 2015, que venho acompanhando com singular interesse desde o início, uma vez que a estiagem vem se prolongando desde 2013. Nos últimos dois anos percorri boa parte do Nordeste e visitei os cinco estados mais afetados pelo flagelo da seca, a saber Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Neste ano de 2015, a serviço do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), tive a oportunidade percorrer longas extensões do nosso Semi-Árido e observar os efeitos causados pela prolongada estiagem. Também visitei muitas regiões ocupado em divulgar o meu livro mais recente, a biografia do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros, autor de versos como estes:

Seca as terras as folhas caem,
Morre o gado sai o povo,
O vento varre a campina,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis mil emigrantes
Flagelados retirantes
Vagam mendigando o pão,
Acabam-se os animais
Ficando limpo os currais
Onde houve a criação.
(...)

E a fome obedecendo
A sentença foi cumprida
Descarregando lhe o gládio
Tirou-lhe de um golpe a vida
Não olhou o seu estado
Deixando desamparado
Ao pé de si um filinho,
Dizendo já existisses
Porque da terra saísses
Volta ao mesmo caminho.

Vê-se uma mãe cadavérica
Que já não pode falar,
Estreitando o filho ao peito
Sem o poder consolar
Lança-lhe um olhar materno
Soluça implora ao Eterno
Invoca da Virgem o nome
Ela débil triste e louca
Apenas beija-lhe a boca
E ambos morrem de fome.

(A seca do Ceará – Leandro Gomes de Barros)

Basta ter um pouco de informação ou percorrer alguns quilômetros do Ceará de hoje para saber que a situação é completamente diferente desse quadro de miséria retratado pelo grande poeta paraibano e por nossa conterrânea Rachel de Queiróz. Entretanto, como dissemos anteriormente, parte da mídia parece (eu disse “parece”) desconhecer as mudanças ocorridas ao longo do tempo.

Atravessei o Piauí de Teresina a Pedro II, passando por Campo Maior, Piripiri e outras cidades, rodei o Ceará em quase toda a sua extensão, percorri a Paraíba de Cajazeiras a João Pessoa, passando por Sousa, Pombal, Patos, Campina Grande e outros municípios; percorri o Rio Grande do Norte de ônibus, de Natal a Mossoró, observando a paisagem e avaliando os efeitos da seca. Em suma, meu olhar atento de sertanejo, nascido e criado por essas bandas, filho e neto de vaqueiros e agricultores, perscrutou uma realidade bem diferente dessa que a mídia insiste em perpetuar por século seculorum.
Em todas as paradas que eu fazia, viajando de ônibus ou de carro próprio, procurava conversar com pessoas mais velhas, nativas daquele chão, para sondar-lhes as impressões sobre os efeitos da seca. Quase todos eram unânimes em afirmar que apesar da extensão do problema, não se tem notícia de uma única pessoa que tenha morrido de fome, como acontecia até meados do século passado. Deparei muitas vezes com pessoas alheias ao fenômeno, principalmente os jovens, mais preocupados com motocicletas e com os mimos da moderna tecnologia. O sertão desertificado povoa-se de milhares de antenas parabólicas e de torres de telefonia, mesmo nos recantos mais distantes.
Os mais afetados continuam sendo os rebanhos (bovino e ovino, principalmente), já que os seres humanos estão garantidos por diversos programas assistenciais, aposentaria rural, perfuração de poços profundos, instalação de adutoras e até mesmo distribuição gratuita de cestas básicas e garrafões de água mineral! A prova disso é que o êxodo rural não se acentuou nem se viu levas de retirantes nas estradas como ocorreu nas secas de 1915, 1932 e 1958, por exemplo. Quando menino, morando em Canindé-CE, vi o comércio ser saqueado por agricultores famintos, em plena década de 1980, a exemplo do que ocorreria em muitas outras cidades. Na seca de 2015, considerada a pior estiagem dos últimos cem anos, apesar da gravidade do problema, não se tem notícias de saque ao comércio em nenhum município nordestino.
Entretanto, a Rede Globo de Televisão parece desconhecer inteiramente a diferença entre a tragédia de 1915 e esta seca registrada cem anos depois. Pelo menos foi a impressão que tive depois de assistir à primeira de uma série de reportagens intitulada “O Quinze – A travessia”, supostamente baseada na obra de Rachel de Queiróz, onde a intenção mal disfarçada é passar a falsa ideia de que os sertões cearenses continuam tão pobres e vulneráveis quanto há cem anos.

ELITE SERTANEJA - Rachel de Queiróz na infância, com a mãe e o irmão Roberto.
Na versão do Jornal Nacional, a escritora aparece como uma menina magrela, de pés descalços.


Para começo de conversa, as cenas de abertura da reportagem acontecem na casa da Fazenda Não-me-deixes, construída em 1954, quando a escritora,  já casada e nacionalmente famosa, resolveu fazer uma casa de veraneio na propriedade herdada de seus pais, no município de Quixadá. O repórter, por desinformação ou pura má fé, parece desconhecer que Rachel pertencia à fina flor da elite sertaneja, que nasceu em Fortaleza em 1910 (em berço de ouro) e que passou parte de sua infância na fazenda Junco, que pertencia ao seu pai, Daniel de Queiróz, ou na “casa de 85 portas” sede da Fazenda Califórnia, propriedade de seus avós. Bastaria uma breve consulta ao livro Tantos anos, biografia de Rachel escrita em parceria com sua irmã mais nova Maria Luíza de Queiróz, para reconduzir a matéria aos trilhos da história.
Depois de retratar a escritora como uma criança magrela, de pés de descalços, a reportagem global, numa inadmissível agressão à verdade histórica, afirma que foi ali, na casa da Fazenda Não-me-deixes, fitando através daquelas janelas ora pintadas de azul marinho, que ela teria adquirido subsídios e buscado inspiração para escrever o seu romance. E outras aberrações vão se sucedendo ao longo da matéria. Preocupado em mostrar o sertão como o recanto mais atrasado do país, o Jornal Nacional não mostra uma única vez os milhares de poços profundos perfurados, os açudes construídos nos últimos cem anos, as adutoras, os carros-pipas, tampouco as cisternas construídas em quase todas as moradias rurais nos últimos dez anos. Pelo menos no primeiro capítulo da série, não houve uma única referência a Orós, Lima Campos e Castanhão, açudes que se não foram a total redenção, minimizaram sobremodo os efeitos devastadores da seca. Pelo contrário, as cenas mais marcantes mostram pessoas idosas raspando a terra seca com enxadas, coisa que um sertanejo só faria, na sua labuta diária, se estivesse completamente desprovido de suas faculdades mentais. Aliás, eu acho que nem doido anda raspando terra seca de enxada, num momento em que apanhar uma virose é a coisa mais trivial deste mundo. Basta um pouco de poeira quente nas narinas.
Em Cenas e Tipos, Rodolfo Teófilo consegue ser magistral em duas crônicas que abordam a problemática da seca. Em “O bebedouro”, uma crônica com sabor de conto, o escritor baiano, naturalizado cearense desde a infância, retrata o sofrimento de uma chusma de sertanejos tentando abrir, heroicamente, uma cacimba no leito do rio seco para dar de beber a um rebanho bovino que muge esquelético, lambendo a terra molhada que é revirada por dezenas de pás e picaretas. No meio dessa azáfama, eis que surge um touro gigantesco, o Faísca, que jamais se deixara capturar, desmoralizando os maiores vaqueiros da região. O velho vaqueiro, ao reconhecer o fogoso bovino naquela rês esquelética que se aproxima do bebedouro, começa a verter lágrimas de tristeza e acaricia o pelo eriçado do pobre animal, que acaba chorando também. Há que se notar que os trabalhos de escavação da cacimba desenrolam-se da forma mais primitiva, sem nenhuma ajuda da tecnologia. Quando a escavação do bebedouro chega na piçarra sem que a água tenha minado, os homens desistem da perfuração do manancial, deixando o gado frustrado e frustrados eles próprios, combinam reiniciar a dura tarefa no dia seguinte, em outro local, na esperança de melhor sorte. A outra crônica que se destaca em Cenas e Tipos intitula-se “A imprevidência do cearense”, que de maneira realista e, de certo modo, com um leve tom de sarcasmo, mostra a falta de bom senso dos nossos sertanejos com relação a prevenção da seca. Durante a Guerra Civil Norte Americana, também conhecida como Guerra da Secessão (1861 - 1865), o Ceará tornou-se um dos maiores exportadores de algodão para florescente indústria têxtil da Inglaterra e de outras potências europeias. Fortaleza, uma cidade ainda pequena e acanhada na primeira metade do Século XIX experimentou considerável progresso com a chegada das libras esterlinas que passaram a movimentar o seu comércio desde então.
Os sertanejos, responsáveis pelo plantio e colheita do ouro branco, surpreendidos por tanta fartura, se excediam nos gastos desnecessários sem suspeitar que a seca em breve lhes bateria à porta trazendo consigo a miséria, a desolação e a peste. Vejamos o que escreveu Rodolfo Teófilo acerca desse episódio:

“Não se avalia a loucura dessa gente em gastos supérfluos. Comprava tudo que se lhe oferecia, sem regatear o preço. Alguns, no delírio do desperdício, lavavam os cavalos com cerveja inglesa, a única que havia, marca Bass, custando mil réis a garrafa, que era de louça.”

Na terrível seca de 1877-79 Rodolfo Teófilo, já estabelecido como farmacêutico em Fortaleza teve a curiosidade de visitar os campos de concentração dos flagelados da seca e deparou, para seu espanto, com muitos daqueles sertanejos que desperdiçavam as suas economias e banhavam cavalos com cerveja importada. Passado o “castigo” da seca, rapidamente esqueceram as suas sequelas e entregaram-se novamente ao vício perdulário. Segundo Rodolfo, além de banhar os cavalos, passaram também a aguar os salões onde dançavam os seus forrobodós. Eis a forma como o escritor registra esse acinte, no livro publicado em 1919:

“O cearense é incorrigível. A sua imprevidência chega à obcessão. (...) As pessoas que visitam o sertão dizem que o matuto desperdiça dinheiro às mãos cheias. O aluá desapareceu e foi substituído pela cerveja, que serve, para cumulo de desperdício, para aguar as casas em que se fazem festas.”

O que eu tenho presenciado, nas minhas andanças recentes pelo sertão, é o surgimento de uma geração de sertanejos obesos e indolentes, viciados em internet, comida enlatada, bandas de forró e outras drogas. Aliás, é um crime chamar essa música de forró, o termo mais adequado para defini-la seria FORRUIM. Bebe-se cachaça, cerveja e até uísque importado como nunca, quase ninguém trabalha e quando falam de crise é sempre usando a revista VEJA ou a Rede Globo como referências. Não é exagero afirmar que existem “sertanejos” de 20 ou 30 anos de idade que nunca pegaram no cabo de uma enxada! Um sertanejo de 65 anos, o Sr. Francisco, entrevistado pela reportagem do Jornal Nacional deu a senha:

“- Tô com 65 anos. Foi a pior seca que passei na minha vida. Foi Deus que mandou mesmo pra pessoa saber quem tem coragem de trabalhar”, diz Francisco.
JN: - Por que?
Francisco: - Só trabalha quem tem coragem, patrão.”

Num ato de heroísmo o velho sertanejo conduz diariamente uma carroça d’água, através de vários quilômetros, para matar a sede do seu pequeno rebanho bovino, que não quer ver morrer à míngua. Foi, sem dúvidas, o ponto mais interessante da reportagem.
Passei uns quinze dias deste final de ano numa casa de veraneio que construí no município de Madalena, às margens da rodovia que liga São José da Macaóca a Lagoa do Mato-Itatira. Num final de semana, por volta de meio dia, com o sol causticante e à pino, fui surpreendido por um comboio de caminhões adaptados para o transporte de gado, repletos de novilhos e garrotes magrelos, espremidos entre as grades da carroceria, vítimas da inclemência climática e da maldade de seus proprietários, sendo levados aos solavancos rumo à Serra do Machado. Indaguei de um sertanejo presente, ali mesmo no meu alpendre, se aquele gadinho estava sendo transportado para a serra em busca de clima melhor, pasto abundante e outros refrigérios.
- Que nada, respondeu o meu interlocutor. Estão sendo levados para a vaquejada de Lagoa do Mato!
Confesso que não contive a minha indignação ao saber que numa seca como essas, onde os bichos são os que mais sofrem com os rigores do clima, ainda se pratica um “esporte” desumano como essa tal vaquejada, que em nada se assemelha às festas de apartação do Ciclo do Couro, quando realmente havia um motivo para se vestir de couro dos pés a cabeça e arrebanhar o gado das soltas para os currais.
Logo após a passagem do comboio bovino, dezenas de motos, carros de luxo e camionetas Hi-Lux passaram rebocando uma parafernália eletrônica que o vulgo batizou de “paredões de som” e a farra comeu solta até a tarde do dia seguinte. Na segunda-feira de manhã, vi o mesmo gado, sofrido e maltratado, retornando para seus locais de origem. Certamente muitos deles tiveram pernas quebradas e foram sacrificados lá mesmo, para proveito dessas “vítimas da seca” que o Jornal Nacional vem apresentando de maneira tão comovida.

* VER ESSE LINK: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/12/um-seculo-depois-o-drama-da-seca-retratado-no-livro-o-quinze-se-repete.html




OBRAS CONSULTADAS

O QUINZE - Rachel de Queiróz
CENAS E TIPOS - Rodolfo Teófilo
A FOME - Rodolfo Teófilo
O QUINZE EM QUADRINHOS, adaptação de Shiko
A SECA DO CEARÁ - Leandro Gomes de Barros

TANTOS ANOS - Rachel de Queiróz e Maria Luíza de Queiróz.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

NO MUSEU DO HUMOR CEARENSE

Raymundo Neto, Stélio Torquato e Arievaldo Vianna



Casamento de letras e riso

A I Festa Literária do Humor Cearense começa hoje e segue até o próximo dia 20, no Museu do Humor

Por Felipe Gurgel - Repórter

De hoje até o próximo dia 20, o Museu do Humor Cearense (Benfica) recebe a I Festa Literária do Humor Cearense. O evento, que presta homenagem a Quintino Cunha, tem sua abertura hoje, a partir das 17h, com a exibição do vídeo "E o palhaço, quem é?" (Cláudio Ivo). O acesso é gratuito.
O primeiro de dia de programação ocorre justamente no "Dia do Palhaço" (10 de dezembro). A efeméride marca várias atividades do encontro, que ainda contará com lançamentos de títulos literários, exibição de filmes, shows de humor, palestras e atividades infantis.
"A Festa Literária não é só uma feira de livros, é um passeio pelo humor do Ceará. O Quintino Cunha nasceu há 140 anos, então escolhemos homenageá-lo. Ele foi escritor e humorista. E apesar disso, ele nunca chegou a publicar nada (sobre humor)", situa Jader Soares, diretor do Museu.
Jader conta, ainda justificando a homenagem, que vários escritores cearenses versaram sobre o humor de Quintino, como Leonardo Mota, Renato Soldon e Plautus Cunha, filho do homenageado.
A festa reabre a exposição "Acunha, Quintino!", hoje, às 18h. De 24 de julho (data do aniversário de Quintino Cunha) a 24 de agosto passado, o Museu do Humor Cearense promoveu a primeira temporada de visitação da mostra.
Com 26 exemplares de livros lançados pelo humorista Chico Anysio, a festa convida, também, para a visitação da exposição "Capas de Chico". O diretor Jader Soares explica que outras exposições permanecem, em caráter fixo, no Museu do Humor, mas o foco da divulgação, com a realização da festa, volta-se aos trabalhos com Chico e Quintino Cunha.
"A exposição do Chico tem várias peças do (personagem) professor Raimundo. O bigode, o jaleco", detalha Jader, exemplificando o que o público poderá conferir durante o evento.

E ainda tem uma cervejinha gelada na Budega do Riso


Lançamentos

Na programação dos 10 dias de feira, haverá uma série de lançamentos literários: "Leandro Gomes de Barros, O Mestre da Literatura de Cordel", de Arievaldo Vianna e a segunda edição do cordel QUEIXAS DE UMA VACA A ROBERTO CARLOS, de Arievaldo e Klévisson Vianna (amanhã, às 19h); "Sobre coisa nenhuma e outras coisas", de Fernando Lira (dia 13, às 18h); "O Teatro de Jorge Ritchie" de Jorge Ritchie (dia 17, às 20h); "Causos", de Totonho Laprovitera (dia 18, às 19h30).
E ainda: "O Direito de Rir VI", de Giovani de Oliveira (dia 20, às 19h); "Paula Nei, o primeiro humorista brasileiro", de Jader Soares (dia 19, às 19h30); "Crônicas absurdas de segunda", de Raymundo Netto (hoje, às 19h30) e o álbum "Fortaleza a Pé, patrimônio histórico de Fortaleza e 100 anos do Bode Ioiô", de Gerson Linhares (dia 15, a partir das 19h).

Museu
O diretor Jader Soares conta que a idealização da I Festa Literária do Humor Cearense ocorre desde a fundação do Museu, há quase dois anos. "A ideia sempre foi fazer uma festa envolvendo livros, CDs, DVDs, não só lançamentos, como os raros que estarão em exposição", resume.
Para Jader, o Museu do Humor Cearense não cumpre apenas o papel de celebrar e preservar o passado distante. O equipamento lida também com a memória recente.
"A gente está sempre em movimento. Temos uma sala sobre o (filme cearense) 'Cine Holliúdy' (2013, dirigido por Halder Gomes). A sala exibe o roteiro original do filme, o DVD, o CD", comenta.
"Tem a sala em homenagem aos humoristas (cearenses), sala de vídeo, a Bodega do Riso. É uma coisa muito simples, mas quem vai lá se encanta. É tudo bem bonitim!", brinca o diretor.

Programação

Hoje
17h - Exibição do vídeo "E o palhaço, quem é?" (Cláudio Ivo)

18h - Abertura da Exposição "Acunha, Quintino!"

19h - Abertura oficial do evento, com cortejo circense (Grupo Garajal)

19h30 - Lançamento do livro "Crônicas absurdas de segunda" (Raymundo Netto)

20h - Lançamento do cordel "O genial Quintino Cunha" (Stélio Torquato Lima)

20h30 - Bate-Papo "140 anos de Quintino Cunha" (Arievaldo Vianna, Raymundo Netto e Stélio Torquato Lima)

Mais informações:


Abertura da I Festa Literária do Humor Cearense. Hoje, a partir das 17h, no Museu do Humor Cearense (Av. Da Universidade, 2175, Benfica). A feira segue até 20 de dezembro. Visitação: de segunda a sexta, das 13 às 21h; sábado e domingo, das 9 às 21h. Gratuito. Contato: (85) 3252.3741

Fonte: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/casamento-de-letras-e-riso-1.1451261



HOJE - 11 de dezembro, lançamento do livro LEANDRO GOMES DE BARROS - VIDA E OBRA e da segunda edição do folheto QUEIXAS DE UMA VACA A ROBERTO CARLOS, a partir das 17h00.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

DIA DE LEANDRO



150 anos do nascimento de  

Leandro Gomes de Barros

Biografia escrita pelo cearense Arievaldo Vianna será lançada em Natal-RN, no Sesquicentenário do mestre da Literatura de Cordel

Leandro Gomes de Barros é um dos mais importantes e ao mesmo tempo um dos menos conhecidos poetas do Brasil. A partir de influências do trovadorismo ibérico e da poesia oral brasileira, ele destacou-se por criar um gênero literário que hoje se denomina Cordel. Todos os poetas ditos populares que vieram depois dele beberam na sua fonte e aproveitaram-se de seus ensinamentos.
A obra de Leandro, aparentemente simples (desprovida de lavores artísticos, como disse Drummond) e impressa em folhetos de baixo custo, abordava temas que eram realmente do agrado de todas as camadas sociais. Até mesmo intelectuais de renome, que supostamente torciam o nariz para esse tipo de literatura, acabavam comprando também, certamente levados pela curiosidade. É o caso de Rui Barbosa, que foi flagrado lendo avidamente alguns desses folhetos e ficou meio sem graça, dizendo que “naquilo” não havia literatura. Pessoas que não frequentavam escolas, que não tinham nenhuma intimidade com as letras, acabaram se alfabetizando através dos folhetos de Leandro ou se tornaram leitores ouvintes, porque esses textos eram sempre lidos em voz alta, em rodas de 5, 10, até 20 pessoas. Eu mesmo alcancei esse hábito na infância, pois nasci no Sertão Central do Ceará, numa localidade onde não havia energia elétrica e as pessoas formavam rodas de leitura à luz de lampiões.

Alguns folhetos de Leandro se tornaram clássicos e tiveram centenas de edições em tiragens de até 100 mil exemplares. Um exemplo disso é “O cachorro dos mortos”, mas podemos destacar também “Juvenal e o Dragão”, “A índia Necy”, “A vida de Cancão de Fogo e o seu Testamento” dentre outros. Folhetos como “O dinheiro” (O testamento do cachorro) e “O cavalo que defecava dinheiro” foram, praticamente, a base da obra mais famosa de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida. Nenhum outro poeta de sua época foi tão popular quanto ele. Era lido e admirado em todo o Nordeste e tinha revendedores (e imitadores) de seus folhetos até nos distantes rincões da Amazônia, tanto que o chamavam ‘o primeiro sem segundo’. Leandro criou uma escola poética cem por cento brasileira, identificada com as nossas raízes, mas que não se descuidava de temas atualíssimos da época, como a política, a Primeira Guerra Mundial, o cangaço, o fanatismo religioso e até mesmo os avanços da ciência; caso por exemplo do folheto “O homem que foi de aeroplano até a lua”, escrito mais de 50 anos antes do pouso da Apolo 11 no solo lunar. Portanto, acreditamos não ser exagero a afirmativa de Drummond de que Leandro realmente mereceu o título de Príncipe dos Poetas Brasileiros.

LANÇAMENTO EM NATAL-RN
ATENÇÃO! O escritor cearense Arievaldo Vianna lançará biografia do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros na abertura na data do seu Sesquicentenário de nascimento (19/11) na capital do Rio Grande do Norte, na Árvore de Mirasol, no espaço onde acontecem as comemorações de Natal. O convite partiu do também escritor Nando Poeta, que coordena um evento literário no local. O autor já lançou a obra em Fortaleza, Mossoró-RN, Caxias do Sul-RS e diversas cidades da Paraíba, inclusive em Pombal-PB, berço do grande cordelista. Para o escritor paraibano Bráulio Tavares, em artigo publicado num jornal daquele estado por ocasião dos 90 anos de morte de Leandro Gomes de Barros, realizar uma biografia do poeta com as poucas informações que subsistiram à ação do tempo é a mesma coisa que catar confetes na rua um mês depois do carnaval.

Arievaldo Vianna encarou o desafio e apresenta um trabalho amparado em fotos, documentos e informações inéditas sobre a vida e obra de Leandro. Na opinião do poeta e pesquisador baiano Marco Haurélio, que assina o texto de apresentação, “trata-se da biografia do nosso mais importante poeta popular, Leandro Gomes de Barros, patriarca da literatura de cordel e autor de, pelo menos, vinte clássicos incontestáveis do gênero. Ari salda o débito que contraiu com o mestre paraibano desde que foi apresentado, na infância, pela avó Alzira de Souza Lima (1912-1994) ao grande pícaro Cancão de Fogo, espécie de Lazarillo de Tormes sertanejo, e maior criação de Leandro.”

SAIBA MAIS EM: www.maladeromances.blogspot.com.br