sexta-feira, 3 de julho de 2015

UM CONTO DE CRUZ FILHO

A BASÍLICA


Basílica de São Francisco das Chagas - Canindé-CE (Foto Francisco Estrela)

Fugindo um pouco à tradição do CORDEL, publicamos hoje um conto do canindeense José da Cruz Filho, com apresentação do poeta Sílvio Roberto Santos, presidente da Academia Canindeense de Letras, Artes e Memória - ACLAME:

UM CONTO DO RÚSTICO ORFEU
Silvio R. Santos

Ao publicar, em 1971, aos 87 anos, o seu Histórias-de-Trancoso (sic), Cruz Filho, a exemplo de sua poesia, parece não ter querido tomar conhecimento dos novos rumos do conto. Para ficar só em dois exemplos, em 1969, Dalton Trevisan publicara A Guerra Conjugal e, já em 1963, sai o primeiro livro de Rubem Fonseca: Os Prisioneiros, inaugurando um novo padrão de contista.
As 28 peças que enfeixam Histórias-de-Trancoso são tentativas, quase sempre logradas, de se estabelecer episódios com aproximações ao conto moral, denunciando, com frequência, certamente suas leituras de Boccacio e até prenúncios velados de misoginia. Por outra vertente, no livro também aparecem instantâneos em prosa poética como em O Sertão, O Luar e a Fera e A tragédia de Certo Sapo e um inconfessável A Caça da Sempre-Ausente o que aparentemente cinde o conjunto do volume. A unidade dos textos é então forçada por seu estilo grandiloquente.
A Basílica, um dos contos mais interessantes dentre os 28 que compõem a obra, narra um importante fato histórico da cidade de Canindé: a reforma da Basílica de São Francisco pelos capuchinhos, no ano de 1910, segundo registro dos historiadores.
Ao narrar a origem do templo encontra o autor ocasião para externar suas convicções agnósticas, provindas talvez do que chamou  de encontro feliz com Spencer e Renan: "Construído primitivamente por volta do último terço do século XVIII, sob a invocação de São Francisco das Chagas, pela mão de um fanático lusitano que até ali se aventurara, viera continuamente sofrendo continuadas reformas através dos anos, até assumir o aspecto que no momento revestia". O templo é demolido: "A despeito de tudo, o santuário se desfazia a olhos vistos, mordido pelos instrumentos de aço dos demolidores. Sobre o piso da velha nave acumulavam-se os destroços, logo retirados em carroças rangedoras".
Mas há imprecações: "Por que tolerava o Santo aquela profanação? - dizia o poviléu - sem fazer uso do raio contra os malfeitores? Onde andariam os serafins, com suas espadas de foto, que não acutilavam os inimigos de Deus?"
Numa de suas melhores constituições de personagem, introduz o narrador a figura da velha Clementina. Não mais transcreveremos, pois havia de se furtar ao leitor o que consideramos esboço dorsal da história, na sua feição episódica.
Assim, salvo o parágrafo final, pejado de desdém, é um texto sólido de um profundo conhecedor das nuances morfo-sintáticas da língua portuguesa.
Embora obtendo reconhecimento nacional, em seu tempo, por um Alceu Amoroso Lima, por exemplo o que já seria bastante, ficamos a aguardar, hoje, a simpatia das autoridades por novas edições de sua obra.

 Canindé - xilogravura de João Pedro do Juazeiro

A BASÍLICA (conto)
O venerável templo erguia as torres a um recanto da principal praça da cidadezinha, como que a montar guarda à vida do povo que mourejava a seus pés, na ingrata faina de viver segregado do mundo, aos raios do candente sol do Trópico.
Tinha o antigo santuário a sua pequena história, que não faltara a lenda que costuma acompanhar quase sempre o aparecimento de núcleos humanos em quaisquer regiões da terra. Construído primitivamente por volta do último terço do século XVIII, sob a invocação de São Francisco das Chagas, pela mão de um fanático lusitano que até ali se aventurara, viera sofrendo continuadas reformas através dos anos, até assumir o aspecto que no momento revestia. Vira, à sua sombra, formar-se a aldeia primitiva, que mais tarde passou à categoria de vila e depois à cidade. Vira crescer e prosperar a população nativa. Ouvira as vozes apostólicas de Frei Vidal da Penha, Frei Serafim, de Catânia, Frei Cassiano de Camachio e do Padre Sena Freitas, que todos ali andaram a semear notícias das benemerências e terrores do Céu, em dias que se sumiram no ocaso das idades.
            Em época mais próxima, entrara-lhe portas a dentro Frei Davi de Dezenzano, com a sua chusma de frades capuchinhos, que tomou o encargo do governo da paróquia e administração do patrimônio do orago. Este, desde o início da construção da primitiva capela, teria vindo, segundo o parecer de seus devotos, beneficiando a população da cidade com o influxo de suas graças e curas maravilhosas; a devoção, no decurso do tempo, ampliou a sua área, chegando a territórios distantes, do alto-Amazonas a Alagoas e Bahia, de onde acorriam caravanas contínuas de romeiros interessados em justar as suas contas pias com o padroeiro, pagando-as, ora em moeda sonante, ora em toscos ex-votos talhados em madeira, cuja própria anatomia estaria vezes a denunciar os equívocos em que haviam caído os ingênuos peregrinos.
            Com a jurisdição dos capuchinhos veio a ter o vetusto templo a sua sentença de morte. Começara então o prestigioso santuário a receber os mortíferos golpes da picareta do arquiteto Antônio Mazzini, que lhe esbarrondavam as sólidas paredes, para, sobre os seus escombros, edificar magnífica basílica.
A população urbana, salvante reduzido escol social, era de mentalidade francamente rudimentar. Entregava-se, sem maior exame, a práticas feiticistas, tentava apaziguar os trovões e os relâmpagos com rezas e incineração de palhas bentas, julgando assim propiciar as potências celestes. Por ocasião das longas estiagens periódicas que flagelavam a região sertaneja, improvisavam os devotos piedosas procissões, por sugestão dos seus crédulos  mentores capuchinhos, as quais percorriam os campos adjacentes, ao ritmo de ladainhas e invocações melodiosas.      Agora, diante da demolição do velho templo, revoltava-se a mesma turba de fanáticos, a vociferar contar a ação do camartelo do arquiteto que lhe derruía as paredes seculares, impregnadas da fé e das dores de muitas gerações. Era aquilo autêntica obra de vândalos  pensava. Debalde se lhe apresentava a planta da projetada basílica, que vantajosamente substituiria o santuário, de cujos altares tinham sido retiradas as imagens do padroeiro e do seu séquito de santos dos dois sexos, ora recolhidos a outra igreja da cidade. A despeito de tudo, o antigo santuário se desfazia a olhos vistos, mordido pelos instrumentos de aço dos demolidores. Sobre o piso da velha nave acumulavam-se os destroços, logo retirados em carroças rangedoras.   Por que tolerava o Santo aquela profanação  dizia o poviléu  sem fazer uso do raio contra os malfeitores? Onde andariam os serafins, com as suas espadas de fogo, que não acutilavam os inimigos de Deus?
Simultaneamente com o azoinar dos protestos e imprecações da turbamulta, circulavam as lendas, os boatos mal alinhavados, transmitidos em todas as direções, com a cegueira da fé e da estultice  popular. A imagem de São Francisco   afirmava-se  exilada na igreja das Dores, fora vista a chorar, com um lenço à mão, ao qual enxugava as lágrimas que lhe corriam pelas faces. Houve quem assegurasse que a imagem do orago fugira para a Itália, montada num jumento, conduzindo consigo o sacrário do templo destruído...
Foi então que, certa manhã, a velha Clementina, anciã de 85 anos de idade, a cujos ouvidos havia chegado a notícia do sacrilégio, tomou a resolução de ir despedir-se do seu querido templo. Na pia da venerando igreja batizara-se sua mãe, escrava como ela havia sido, batizara-se ela própria e batizaram-se ainda as suas filhas, provindas de pais avulsos. Ali teria assistido ela, segundo a sua memória conturbada, a última missa, celebrada, com evidente anacronismo, por Frei Vidal da Penha, acolitado por uma turma de anjos da Corte Celestial, expressamente de lá enviada pelo santo Padre Cícero Romão Batista...
Delirava. Após longuíssima reclusão em seu miserável casebre, onde era habitualmente socorrida pela caridade pública, meteu-se naquele dia num surrado vestido, pôs à cabeça os restos de um lençol encardido e, claudicante sobre as duas alpercatas,  tomou o rumo do centro da cidadezinha, arrimada ao grosseiro bordão caseiro. Aos tropeções, cai aqui, cai acolá, transpôs vagarosamente a distância que a separava do santuário derrocado.
Que viu ela, Senho Deus, ao estacar perplexa diante dos escombros do saudoso templo?   Ruínas, tão somente ruínas, das quais as cataratas de seus olhos só permitiam lobrigar vultos esparsos...
Convulsivo tremor apoderou-se da antiga escrava. Balbuciou palavras ininteligíveis, alçou os braços descarnados, o bastão desprendeu-se-lhe das mãos e Clementina caiu morta diante do espaço ora vazio do sítio em que teria sido Tróia...  Ao entardecer daquele dia, quando o poente era suntuoso incêndio de ouro e púrpura para engalanar os funerais do Sol, uma carreta puxada por magro cavalicoque conduzia, aos solavancos, através do calçamento de pedra solta das ruas, o cadáver de Clementina à vala-comum do cemitério da cidade. Não havia ela merecido a graça de ver em breve desenhar-se, sob o céu de Canindé, a altaneira cúpula da Basílica que ora proclama ali a imortalidade mística do lendário utopista da Úmbria.
Entrementes, ocorreu o caso do encontro do sacristão Estanislau, ao anoitecer do dia seguinte, com o fantasma da ex-cativa, quanto este procurava reaver o cajado que deixara caído nas imediações das ruínas do templo. Acompanhava-o, naquela ocasião, segundo o testemunho do mesmo visionário, pequeno demônio de pêlo cor-de-rosa deveras encontradiço em cavidades de catacumbas arruinadas de antigos campos-santos.

Conto extraído do livro Histórias-de-Trancoso, publicado em 1971. Atualizou-se a acentuação gráfica e a ortografia em certos casos.)



DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR

José da Cruz Filho (16/10/1884 - 29/08/1974), nasceu em Canindé. Estudou as primeiras letras no Colégio Santo Antônio, fundado pelos frades capuchinhos. Muito jovem ainda, passou a interessar-se pelas letras. Fundou, em 1903, juntamente com Augusto Rocha e Gregoriano Cruz o primeiro jornal que circulou em sua terra natal, chamado “O Canindé”. Transferiu-se na segunda década do Século XX para Fortaleza, onde desenvolveu intensa atividade jornalística e poética. Em 1963 foi eleito Príncipe do Poetas Cearenses.
Crítico literário, contista e historiador, tendo colaborado com jornais e revistas do Ceará e de outros estados do Brasil.
Publicações: Poemas dos belos dias, 1924; Síntese da História do Ceará, 1931; Poesia, (seleção), 1949; O soneto, (Monografia), 1961; Toda a musa, 1965; Histórias de Trancoso, (contos), 1971; Poemas escolhidos, 1986; e História do Ceará (resumo didático), 1987.
Ingressou na Academia Cearense de Letras no dia 8 de setembro de 1922 (primeira reorganização), ocupando a cadeira número 27, cujo patrono era Rocha Lima.

Com as subseqüentes reorganizações, ocupou as cadeiras 7 (1930) e 39 (1951) tendo como patrono o escritor Araripe Júnior.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

ACORDA CORDEL


PROJETO ACORDA CORDEL NA SALA DE AULA


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ARIEVALDO VIANNA

Crédito da foto: Dinho da Viola

terça-feira, 28 de abril de 2015


Biografia do mestre da literatura de cordel 
é lançada no Espaço Cultural

Uma noite dedicada à autêntica poesia sertaneja e à cultura popular. Foi assim o lançamento da biografia “Leandro Gomes de Barros – O Mestre da Literatura de Cordel: Vida e Obra”, do escritor cearense Arievaldo Vianna. O evento aconteceu no último sábado (25), no mezanino 2 do Espaço Cultural José Lins do Rego, com a participação do declamador Iponax Vila Nova e da dupla de repentistas Rogério Meneses e Raolino Silva.
Como não poderia faltar, o autor da biografia declamou trechos de folhetos famosos do cordelista paraibano homenageado, que é autor de textos que influenciaram Ariano Suassuna na criação de sua obra mais famosa, o ‘Auto da Compadecida’, como ‘O Dinheiro’ (ou O testamento do Cachorro), de 1909, e ‘O cavalo que defecava dinheiro’.
Poeta atemporal, Leandro se valeu da sátira para criticar os desmandos de seu tempo: a influência estrangeira em Pernambuco, Estado onde se estabeleceu. Essa característica foi lembrada por Iponax Vila Nova, que além de mestre de cerimônia da noite, declamou e interagiu com o público que desafiou sua memória imbatível pedindo versos e homenagens a cordelistas.

Mestres na arte do improviso, os repentistas Raolino e Rogério conquistaram o público com seus versos e violas. A experiência de um desafiando a juventude do outro em clima de descontração conseguiram levar o público às gargalhadas ao abordar temas da atualidade.
O evento realizado pelo Governo do Estado, por meio da Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc)  antecipou as comemorações pelo sesquicentenário de nascimento do poeta paraibano natural da cidade de Pombal, que acontece em 19 de novembro. O autor da biografia apresenta um trabalho amparado em fotos, documentos e informações inéditas sobre a vida e obra de Leandro. Para a presidente da Funesc, Marcia Lucena, a cultura popular merece ser tratada com essa atenção.
No texto de apresentação do livro, o poeta e pesquisador baiano Marco Haurélio, afirma: “Trata-se da biografia do nosso mais importante poeta popular, Leandro Gomes de Barros, patriarca da literatura de cordel e autor de, pelo menos, 20 clássicos incontestáveis do gênero. Ari salda o débito que contraiu com o mestre paraibano desde que foi apresentado, na infância, pela avó Alzira de Souza Lima (1912-1994) ao grande pícaro Cancão de Fogo, espécie de Lazarillo de Tormes sertanejo, e maior criação de Leandro.”
No prefácio da obra, o professor e estudioso da cultura popular Gilmar de Carvalho escreve: “Leandro é daquelas unanimidades a favor. Inegável que foi o grande nome do folheto e um dos sistematizadores da edição de cordéis no Brasil, com rima, métrica e folheto múltiplo de quatro páginas, com capa gráfica, no início, e com xilogravura, tempos depois. Curiosa essa passagem do violeiro para o poeta de bancada. Importante compreender como a maquinaria obsoleta para os grandes centros se interiorizava e dava lugar a jornais políticos e depois a uma atividade que movimentou a economia, que revolveu nossas camadas de memória e se fixou no imaginário social.”
Em 176 páginas, o livro reúne, além dos fatos relacionados à vida do poeta, raridades como fotos de familiares, documentos que esclarecem aspectos antes obscuros da biografia de Leandro. A pesquisa tem colaboração de Cristina Nóbrega, bisneta de Daniel, irmão de Leandro.  Merecem destaque também as entrevistas com o escritor Pedro Nunes Filho e o consagrado cordelista Paulo Nunes Batista. O primeiro é bisneto de Josefa Xavier de Farias, irmã de Adelaide (mãe de Leandro). O segundo é filho do pioneiro do cordelismo, Francisco das Chagas Batista, amigo do criador de Cancão de Fogo, e guarda na memória episódios interessantes que ouvia de seu irmão Pedro Werta, afilhado do biografado.

FONTE: http://www.paraiba.pb.gov.br/biografia-do-mestre-da-literatura-de-cordel-e-lancada-no-espaco-cultural/


José Paulo Ribeiro, Arievaldo, Maria do Socorro, Jocélio e José de Sousa Dantas

quarta-feira, 22 de abril de 2015

NA TERRA DE LEANDRO E CANCÃO DE FOGO






FONTE: http://www.paraiba.pb.gov.br/lancamento-de-biografia-homenageia-sesquicentenario-do-paraibano-mestre-da-literatura-de-cordel/

Dia 23/04 - Lançamento em Sousa-PB

Dia 24/04 - Lançamento em Pombal-PB, terra natal do poeta Leandro Gomes de Barros


Em João Pessoa, com os amigos de Guarabira-PB.


Lançamento de biografia homenageia 

sesquicentenário do paraibano 

mestre da literatura de cordel



O escritor cearense Arievaldo Vianna lança, neste sábado (25), a biografia do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros. O lançamento acontece às 18h, no mezanino 2 do Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa. A programação da noite conta com as presenças de Iponax Vila Nova (declamador) e dos repentistas Rogério Meneses e Antônio Lisboa. A entrada é gratuita.
O evento realizado pelo Governo do Estado, por meio da Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc), antecipa as comemorações pelo sesquicentenário de nascimento do poeta paraibano natural da cidade de Pombal, que acontece em 19 de novembro.
O autor da biografia apresenta um trabalho amparado em fotos, documentos e informações inéditas sobre a vida e obra de Leandro de Barros. No texto de apresentação do livro, o poeta e pesquisador baiano Marco Haurélio, afirma: “Trata-se da biografia do nosso mais importante poeta popular, Leandro Gomes de Barros, patriarca da literatura de cordel e autor de, pelo menos, vinte clássicos incontestáveis do gênero. Arievaldo salda o débito que contraiu com o mestre paraibano desde que foi apresentado, na infância, pela avó Alzira de Souza Lima (1912-1994) ao grande pícaro Cancão de Fogo, espécie de Lazarillo de Tormes sertanejo, e maior criação de Leandro.”
O cordelista paraibano é autor de dois folhetos que influenciaram Ariano Suassuna na criação de sua obra mais famosa, o ‘Auto da Compadecida’. Trata-se de ‘O Dinheiro’ (ou O testamento do Cachorro), de 1909 e ‘O cavalo que defecava dinheiro’. Em artigo que escreveu e publicou em 1976, o poeta Carlos Drummond de Andrade considera Leandro ‘Rei da poesia sertaneja’ e reivindica para ele o título de ‘Príncipe dos Poetas Brasileiros’, que foi concedido a Olavo Bilac, em 1913. Esse polêmico artigo de Drummond é cuidadosamente analisado em um dos capítulos da biografia escrita por Arievaldo. Segundo o autor, foi uma pesquisa árdua e persistente, ao longo dos últimos dez anos, sem contar com apoio financeiro de qualquer espécie, apenas a colaboração de amigos que também admiram a obra do grande poeta.
Na opinião do professor Gilmar de Carvalho, estudioso da cultura popular que assina o prefácio da obra, “Leandro é daquelas unanimidades a favor. Inegável que foi o grande nome do folheto e um dos sistematizadores da edição de cordéis no Brasil, com rima, métrica e folheto múltiplo de quatro páginas, com capa gráfica, no início, e com xilogravura, tempos depois. Curiosa essa passagem do violeiro para o poeta de bancada. Importante compreender como a maquinaria obsoleta para os grandes centros se interiorizava e dava lugar a jornais políticos e depois a uma atividade que movimentou a economia, que revolveu nossas camadas de memória e se fixou no imaginário social”, destacou.
Poeta atemporal, Leandro se valeu da sátira para criticar os desmandos de seu tempo: a influência estrangeira em Pernambuco, estado onde se estabeleceu. Com o chicote da sátira, vergastou os coronéis da Velha República. Pleno de graça, lançou chispas em direção ao clero, sem esquecer os protestantes e a justiça (dos tribunais). Ao mesmo tempo, exaltou os cangaceiros liderados por Antônio Silvino, criando o modelo que seria seguido pelos futuros biógrafos de Lampião no cordel: a fusão do cangaceiro nordestino com o cavaleiro andante do Medievo europeu.
Em 176 páginas, o livro reúne, além dos fatos relacionados à vida do poeta, raridades como fotos de familiares, documentos que esclarecem aspectos antes obscuros da biografia de Leandro. A pesquisa tem colaboração de Cristina Nóbrega, bisneta de Daniel, irmão de Leandro.  Merecem destaque também, as entrevistas com o escritor Pedro Nunes Filho e o consagrado cordelista Paulo Nunes Batista. O primeiro é bisneto de Josefa Xavier de Farias, irmã de Adelaide (mãe de Leandro). O segundo é filho do pioneiro do cordelismo, Francisco das Chagas Batista, amigo do criador de Cancão de Fogo, e guarda na memória episódios interessantes que ouvia de seu irmão Pedro Werta, afilhado do biografado.
Serviço
Lançamento da biografia Leandro Gomes de Barros – O Mestre da Literatura de Cordel, vida e obra – autor: Arievaldo Vianna
Participações: de Iponax Vila Nova (declamador), Rogério Meneses e Antônio Lisboa (repentistas)
Data: 25/04/2015
Hora: 18h
Local: Mezanino 2, Espaço Cultural José Lins do Rego
Entrada: gratuita


Lançamento em Pombal-PB, dia 24 de abril. No dia anterior estivemos em Sousa, no Centro Cultural Banco do Nordeste

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Anedotas e poemas do QUINTINO


Recentemente, adquiri pela Estante Virtual o livro MUSA GAIATA, organizado por Renato Sóldon e Bastos Tigre, reunindo a produção gaiata de diversos poetas, dentre os quais QUINTINO CUNHA. Vejamos alguns poemas enfeixados nesta obra...

Quintino Cunha
Poesia humorística – poesia satírica


QUINTINO CUNHA ― civilmente José Quintino da Cunha ― conhecidíssimo em todo o Brasil, sobretudo nos Estados  nordestinos, advogado e poeta, possuía  a virtude de improvisar discursos, versos e trocadilhos, com tal facilidade, que  estarrecia a todos.


Cearense de nascimento, cumpriu  o destino do seu povo: viajou de Seca e Meca. Durante cinco anos consecutivos esteve embrenhado nas selvas amazônicas e, de lá daqueles confins misteriosos, transportou-se para a Europa, onde publicou em Paris, o seu formoso livro “Pelo Solimões”.

No velho mundo privou da intimidade de Guerra Junqueiro Emile Faguet, Edmond Rostand,  Richepin Filho  e outros grandes vultos da literatura  universal.

Boêmio, amigo do povo, QUINTINO CUNHA militou na imprensa e tribuna, sempre ao lado dos desprotegidos contra as potestades ocasionais.


São de sua lavra, escritos no fim da vida, êstes mordacíssimos apólogos:


O CAVALO

                  ― O mérito, em declínio, é sempre oriundo
                  de um suposto valor:
                  o Cavalo foi tudo, neste mundo,
                  desde escravo aa Senhor!

                  Na Arábia, foi Herói; na Grécia, Trono;
                  Em Roma, Senador!
                  Hoje, no mais humilimo abandono,
                  mal chega a ser Doutor!


O GATO

                  ― O Gato, se tem fome, é assim: procura,
                  todo brandura,
                  o dono seu, pedindo-lhe comida.
                  Mas de uma fórma, tão enternecida,
                  que nos parece Gato
            a sombra fiel de um candidato
            pedindo votos para ser eleito...
            E, quando o  apanha,
            que ao próprio dono ferozmente estranha,
            aí é que o retrato está perfeito!


O BURRO

                  ― Chega à feira um sertanejo
                  montado num Burro arisco.
                  E, sem pensar nalgum risco,
                  daquele canto não sai.
                  Perto, apita um trem, e o Burro
                  salta com tal ligeireza,
                  que o pobre homem, de surpresa,
                  desiquilibra-se e cai!

                  Nesse momento, a assistência,
                  um tanto ou quanto educada,
                  prorrompeu em forte assuada,
                  quando o matuto caiu...
                  E, apenas como protesto,
                  àquele cena, tão séria,
                  vendo tamanha miséria,
                  somente o Burro não riu...

      QUINTINO tinha pavor aos ignorantes, notadamente àqueles que atingiam posição de destaque na política, na sociedade, no comércio, nas artes ou ...nas letras.

      Nas oitavas abaixo reproduzidas, o poeta adverte-nos o perigo que o ignorante oferece à humanidade:


O MENTIROSO E O IGNORANTE


O ment'roso é conciénte
da mentira que êle explora.
Mas o ignorante ignora,
que ignora o que fizer.
De onde suponho, com acerto,
ser natural que prefiras
um soltador de mentiras
a um ignorante qualquer.



   A IGNORÂNClA

_ Na história da teimosia,
entra a rudeza e a arrogância,
é tão forte a ignorância,
tão cruenta, tão mendaz,
que a própria Sabedoria;
de tudo, sabendo tanto,
 não póde saber de quanto
o ignorante é capaz.

É imenso o trovário do conhecido epigramista cearense.
Eis algumas redondilhas, à moda popular, de sua autoria: 

      — O homem que se sujeita
    a caprichos de mulher,
    é  zero escrito à direita
    de uma unidade qualquer.

              — Mesmo, sem subserv'ência,
                quem se ampara em proteção,
                  aou vive dependência,
               ou morre na humilhação 

Reforma, de quando em quando,
segundo o meu parecer,
é uma vela se apagando
e outra pra se acender...

           
    — O cearense, em criança,
    nasce na FÉ, com verdade;
    cresce e vive na ESPERANÇA
    e morre na CARIDADE.


Quando foi criado o sêlo de educação e saúde, QUINTINO farpeou, com esta quadra, um advogado, seu conterrâneo, homern doente do côrpo e da inteligência:


    — Um bacharel doente e rude,
         quasi morreu de desgôsto,
          por não pagar o imposto

          de Educação e Saúde. . .


Alguns meses antes de fechar os olhos à vida, no seu leito de dôr, o poeta brincava com a morte. Marido amantíssimo, QUINTINO ditou estes versos, de humor à Swift, ao seu sobrinho Renato Sóldon, pedindo-lhe mostrasse-os, depois, à sua dedicada esposa, a titulo de brincadeira:


                                  SPES UNICA


            — Morto, dentro da fria sepultura,
            sem te poder falar?
            E tú, que me amas, bôa criatura,
            indo me visitar...

            Banhada de suspiros, de soluços,
            desmaiada, talvez . ..
            Muita vez reclinada, até de bruços,
            na altura dos meus pés...

             Pedindo a Deus o meu viver eterno
             junto das glórias suas;

             que me livre das penas do inferno,
             e a chorar continúas...

Lembrando nossa vida a todo instante
repassada de dôr,
a lembrar-te que fui o teu amante,
— o teu único amor,

M al, pensando na horrífera caveira,
em que me transformei,
exausto de fadiga, de canseira,
imaginar não sei...

Para evitar essa hora amargurada,
êsse quadro de dôr, tão verdadeiro,
Deus há-de ser servido, minha amada,
que tú morras primeiro ! ...

Afinal, aos 68 anos de idade, no dia primeiro de Junho de 1943, em Fortaleza, QUINTINO CUNHA fechava os olhos à vida. Sem nada possuir, senão um grande talento e enorme cultura, êle mesmo ditou, momentos antes de morrer, o epitáfio para o seu túmulo:

— O Padre Eterno, segundo
refere a História Sagrada,
tirou o Mundo do nada...
E eu Nada tirei do mundo.


Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/amazonas/quintino_cunha.html

quarta-feira, 8 de abril de 2015

VISITANDO ESCOLAS NO RECIFE


 
RELATÓRIO DE ATIVIDADES NAS ESCOLAS DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DO RECIFE-PE

Por: Arievaldo Vianna

 A Editora Imeph, através do projeto “Nas Ondas da Leitura”, vem desenvolvendo um trabalho magnífico na formação de jovens leitores em diversos municípios nordestinos. Desde que começou a publicação de livros infanto-juvenis, por volta de 2005, essa editora vem se firmando como uma das melhores do gênero. Logo em 2006 tivemos a sorte de termos um livro incluído no PNBE – Programa Nacional da Biblioteca da Escola, do MEC, justamente uma obra de minha autoria, intitulada “A raposa e o canção”, que havia participado de um projeto anterior do Governo do Estado do Ceará intitulado “Baião das Letras”. Naquele ensejo, publicamos mais dois “cordelivros” ilustrados – “O Pavão Misterioso” (releitura da obra de João Melchíades e José Camelo Rezende) e “O Bicho Folharal”, um conto popular que meu avô gostava de repassar para os netos no alpendre da casa grande da fazenda Ouro Preto, Sertão do Central, onde vivi meus verdes anos.
O sucesso de meus trabalhos pela Editora IMEPH motivaram convites de outras editoras para adaptação de clássicos da literatura brasileira e universal para a linguagem do cordel, além de textos originais ou baseados em lendas populares que logo se firmaram no gosto de estudantes e educadores de todo o Brasil, resultado em diversas inclusões no Catálogo da Feira Internacional de livros infanto-juvenis da Bolonha-Itália e mais 4 inclusões no PNBE, além do selo “Altamente recomendável”, da FNLIJ, presente em algumas obras. Enquanto isso, a editora IMEPH não parou de crescer e se firmar com uma grande empresa do mercado editorial, graças à qualidade de seus autores e ao dinamismo de sua equipe, que tem a frente a incansável Lucinda Azevedo.
Em março deste ano, recebi convite da Editora IMEPH para realizar um trabalho de visitação às escolas da rede municipal de ensino de Recife-PE, onde o projeto “Nas ondas da leitura” chegou com força total, espalhando milhares de “kits” com livros paradidáticos para várias faixas de público, desde as séries iniciais a adolescentes das séries mais adiantadas e até mesmo alunos do EJA.
A missão que me foi confiada foi cumprida à risca e com todo o empenho e dedicação que costumo empregar em atividades desse porte. Logo na primeira escola visitada, em companhia da coordenadora pedagógica Michelly Almeida, percebi que o mestre Ariano Suassuna, incansável defensor da cultura popular e da literatura de cordel foi escolhido pela Secretaria de Educação do Município de Recife para ser o PATRONO do ano letivo no que se refere à difusão da prática da leitura. Como se diz na linguagem popular corrente, “caiu a sopa no mel”. Além de participar e palestras, recitais e sessões de autógrafos do livro “O pavão misterioso”, uma das obras selecionadas para o projeto, discorri também sobre a obra de Suassuna, com ênfase no seu trabalho mais conhecido – O AUTO DA COMPADECIDA que é inteiramente baseado em diversos folhetos da chamada Literatura de Cordel, a saber: O Dinheiro (Testamento do Cachorro) e O cavalo que defecava dinheiro, ambos de Leandro Gomes de Barros, além de “As proezas de João Grilo”, de João Ferreira de Lima e “O castigo da soberba”, de Manoel Vieira do Paraíso. Ora, João Grilo foi o primeiro anti-herói que conheci na minha infância, antes mesmo de aprender as primeiras letras. Quando fui alfabetizado por minha avó paterna, Alzira de Sousa Lima, logo decorei diversas estrofes do folheto de João Grilo, que ainda hoje declamo com desembaraço nas minhas apresentações, para deleite das novas gerações, inclusive aquelas que não têm intimidade com o cordel.
As escolas visitadas, durante os três dias em que permaneci na capital pernambucana foram: Arraial Novo Bom Jesus, Osvaldo Lima Filho, Dom Bosco e Nadir Colaço. Em todas elas, sem exceção, houve excelente acolhida por parte dos educadores e notável interesse por parte dos estudantes, que acompanharam com interesse a palestra, fazendo perguntas sobre o livro em questão e querendo saber mais sobre as atividades de um escritor, suas fontes de inspiração e metodologia de trabalho. Note-se que, infelizmente, não é comum que autores visitem escolas públicas, fato que por si só, já diferencia positivamente o trabalho realizado pela Editora IMEPH.
Além da ótima orientação da equipe local (Amelinha, Thays, Rouxinol e Márcia) eu quero ressaltar a boa acolhida da equipe de Pernambuco (Rodrigo, Michelly, Alessandro e Carlinhos) que deram todo o suporte para que o trabalho se realizasse da melhor forma possível. Soube que o projeto está sendo expandido para outros municípios pernambucanos como Jaboatão, Cabo de Santo Agostinho, Garanhuns etc, o que contribui para a consolidação do projeto “Nas ondas da leitura” em nosso estado vizinho. Espero retornar outras vezes a Pernambuco e ter muitas outras obras trabalhadas junto aos estudantes daquela região.

 


Fortaleza, 08 de abril de 2015